Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

My elephants

Tenho vários elefantes de estimação.

Amo todos eles.

Os criei como se fossem filhos meus.

Nunca houve nada nesse mundo que me

fizesse esquecê-los.


Mas agora estou muito preocupado com eles.

Muito mesmo.


Nos bolsos, na mochila,

no colo, na consciência...

Sempre os levei comigo onde quer que eu fosse.

Mas agora...


Acho que eles estão na puberdade, sei lá.

Não param de comer, de crescer...

de crescer...

e de engordar, de brigar e de correr.

Eles não param mais quietos,

não me deixam em paz!


Se mexem nas sacolas,

se sacodem na mochila,

dão trombadas no meu juízo...

Brigam e namoram com aquele barulho que eles fazem, sabe?

Não me deixam dormir.


Um deles até já me bateu...

Não sei mais o que fazer.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Para uma menina com uma folha


Fico desenhando folhas em todos os lugares.
Desenho folhas
e como as folhas,
mas não como as folhas comem a luz.
As como como elas comem a minha dor
e a minha saudade.

Arranco, rasgo ou corto...
uma de cada vez, mastigo
com os dedos, com os olhos,
com os lábios, com os dentes.

Devoro todas
porque, em todas elas,
posso ler o seu nome.

Sábado, 30 de Maio de 2009

Do que não fiz

E o que eu coloquei no lugar de tudo aquilo?
"Zês", lamentos e muita areia, muita pedrinha.
Um monte de nada entulhado que pesa pra caralho.

Minha inércia sempre foi muito sociável.
Fez logo amizade com o medo e com a vergonha.
Dormem confortáveis na cama dos meus traumas e,
quando acordam, são vândalos imparáveis.
Há anos que eles destroem minha casa por dentro.
Quebraram os móveis e as janelas, rasgaram os tapetes.
As paredes estão todas trincadas.
Essas linhas, que começam a aparecer no meu rosto,
são fendas profundas no meu espírito.
Nelas, dois escorpiões fizeram ninhos.

Olhar isso tudo me dá uma raiva tão grande...
Mas nem esse desgosto que eu sinto é digno.
É um desprazer contido, conformado,
e sentir mais que isso seria jogar bosta no ventilador.

Não poder fazer nada dói tanto... tanto!

Domingo, 17 de Maio de 2009

"És um senhor tão bonito"...

O tempo é meu grande amigo, penso. Fico encantado com a forma como ele nos destrói aos poucos e, ao mesmo tempo, com o seu poder de renovar todas as coisas a todo instante. Muito me agradaria, claro, que ele fosse menos apressado, menos metódico, mas não é sua velocidade que compromete meu sucesso e minha paz. É a preguiça quem faz isso.
Acho que o tempo é a única coisa que definitivamente sempre existiu. Não há nada que ele já não saiba ou que nunca saberá. Ainda que frequentemente fuja ao momento oportuno, ele sempre traz as respostas certas. Bom, eu acredito nisso.
Meu mundo é devoto de Cronos. Diante de sua grandeza, tudo ao meu redor se curva, se contorce, grita, geme, chora e sorri. As rotações do meu mundo evidentemente não seguem o mesmo ritmo da Terra, mas, meu Deus (!), como dá voltas!

Toda a tua imbecilidade apenas endossa o esplendor e a majestade do tempo. Já tá add, mas isso não significa que sou teu amigo outra vez. ^^ 

Sábado, 2 de Maio de 2009

Escrevi, mas não mandei

Lembro de cada uma daquelas palavras que te disse com os dedos, atrás da orelha, e do jeito que você as escutava com a pele. Eram as mesmas declarações de humor, as mesmas piadas amorosas, porque você sempre se contorcia sorrindo com elas. Dobrava sua nuca, de olhos fechados, e depois me fitava de lado. Dentes, orelhas e cabelos me observavam. Todos os seus pelos levantavam pra me cumprimentar. Eu sei que as pupilas, quase tão abertas quanto as pálpebras, podiam me ouvir respirando sua beleza, sussurrando palpitações através do deslizar do queixo e dos beijos nos ombros nus.

Você gostava das minhas costas, lembra? E das minhas pernas também. Eu gostava do seu jeito de observar meu dorso com as mãos esticadas, me analisando com as unhas... Disputávamos nossos ventres com línguas e dentes, bocas abertas e esfomeadas. Escrevi minhas melhores cartas em você, que as devorava com o corpo trêmulo e extasiado. Eu gostava de ler as suas várias vezes depois, diante do espelho ou por baixo da roupa, ou em seus olhos no ato da escrita. Nossa tinta era mais que saliva e suor. Tinha um pouco daquilo que não sai da gente e, ainda assim, se propaga tão intensamente que dificilmente deixará as memórias em paz.

Espero mesmo que você se lembre de todas essas coisas, onde estiver. Eu não vou conseguir fazer outra coisa na vida. Escrevo cartas novas todos os dias, com outra grafia, em outro suporte. Elas vêm com os joelhos dobrados, com os olhos marcados de insônia, com o nariz e as bochechas entregues ao vento frio do píer. As letras saem doídas, as frases garranchadas, os parágrafos derretem no papel. Minha tinta, que agora é só saudade, é um borrão bizarro que sai dos meus pés e minhas mãos gelados. Costumo grafar novas mensagens sempre, que não serão mais que missivas extraviadas.

Até hoje beijo sua voz com os tímpanos e digito seu nome nas teclas do piano.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Turning on the fuck you - parte 2

Aviso prévio: antes que comecem a confundir as coisas, vou logo avisando que meu dia não foi bom hoje. Quando estava começando a melhorar eu consegui fazer ficar ainda pior. Este texto foi escrito hoje durante a aula do Gentilli, ainda antes do almoço.

Acho que eu finalmente liguei o foda-se. Liguei, e liguei esplendorosamente. Fiz brotar em mim um desejo impetuoso, sádico e irrefreável de desprezar cruelmente alguns indivíduos que só Deus sabe o que vieram fazer neste mundo. Dou-me jocosamente ao trabalho, quase uma obrigação litúrgica, de mandar cada um deles irem tomar no cu. Tá achando vulgar? Então foda-se (!), ninguém pediu pra você ler isto.
Hoje ouvi uma certa coisa que, se tivessem me dito há um ano que fosse ou dois, certamente eu teria me destruído. Na mesma hora comecei a adjetivar mentalmente o imbecil que proferiu a galhofa: playboyzinho medíocre, irresponsável, sonso, com cara de jumento castrado e orelhas de abano. É lógico que não disse isso a ele pessoalmente, mesmo porque sou covarde e me contento em ridicularizá-lo em meu íntimo. Se um dia, por acaso, eu vier a falar isso sonora e verbalmente, certamente será pelas costas. Pois é, além de covarde eu também sou falso.
Bom, de certa forma ele me destruiu sim, mas só um pouquinho. Não fiquei me martirizando como em outros tempos, diante do espelho. Tampouco tive paciência para escarnecer aquele infeliz por muito tempo. É verdade, isso sempre acontece comigo. Eu canso de ficar com raiva, e dizem que que isso é bom. Em minha cabeça, mandei ele se foder e pronto. O que mais eu poderia fazer? Aliás, o que mais eu posso fazer numa hora dessas? Tenho usado bastante esse verbo ultimamente e tem dado certo. Bom, pelo menos algumas lágrimas eu já economizei.

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

Puteza

Cansado de dormir mal, no auge da fúria e do desgosto, Dermival mal olha o livro preto que pegou pra ler. Está logo ali, jogado, esquecido em seu travesseiro, e daqui a pouco será jogado no chão. Vão se passar duas semanas e o protagonista ainda não vai ter comido aquela ninfetazinha vadia...
Ele, nosso furioso colega, mal sabe o que pensar numa hora dessas. "Pra que peguei esse livro mesmo"? Também tem os deveres. Bah! Não sabe o que escrever, e nem para que, nem para quem. Pra quando ele sabe.
No fundo, Dermival se pergunta: "O que raios eu vim fazer aqui"? Tudo o que ele vê é aquele vácuo sufocante no qual tanto lutou pra entrar e que agora, finalmente, descobriu que não faz sentido nenhum. Talvez faça, mas ele pensa que não e eu respeito. Pelo menos não está sozinho, sempre tem uns babacas pra fazer companhia.
Só lamento que, neste exato momento, esse menino tão bom só pense em se encher de fumaça, se pintar de vermelho e dormir.

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Vencedor

"De tudo ao meu amor serei atento"*... claro. Até seria se eu não fosse "eu". Sendo o que sou, quem eu sou, só sei prestar atenção no que ainda não venceu.
Acontece que tudo o que é meu vence. Minhas saudades vencem, minhas amizades vencem, meus amores... acho que até mesmo eu vou vencer um dia. 
Venci. (?)

*Isso daqui é só pra dizer que não estou plagiando ninguém, mas todo mundo sabe que soneto é esse, né?