segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Penas

Antes, onde moro,
havia um galo que apontava para o norte
e um outro que ficava rosa quando estava para chover.
Os dois foram ciscar e berrar em outro terreiro.
Foram tarde!

Outros bichos, em compensação, gostam de passar aqui todo ano.
Pássaros imbecis!
Gostaria de não saber pra onde voam.
Essa flecha que corta o céu tão decidida...
essas aves que sabem bem pra onde vão...
enchem o meu saco.

Nada, porém,
é pior que essa pomba maldita
que sempre sabe voltar pra "casa".
Sabe bem, essa desgraçada,
onde mais gosta de cagar.

As aves sempre sabem de alguma coisa.
Não sabem contar, mas cantam.
E sabem voar... e não ensinam.

E elas também sempre sabem de outras coisas
que cada uma delas sabe de um jeito diferente.
Se um homem não se mete,
elas sempre sabem onde querem ir.
Enxergam longe, essas penosas.

Bom, eu...
eu não quero nem saber.
Não me contem, não me mostrem.
Caralho! Eu...

Eu quero esquecer.

domingo, 18 de outubro de 2009

Sujeira do mundo

Sou a sujeira do mundo que você varreu para debaixo do tapete.

Não vou ficar ali pra sempre. Não irei.
Espero ansiosamente pelo dia em que limparás o chão em que durmo.
Assim que sacudires meu cobertor,
voarei livre pelo ar e pela vida.
Colarei nas tuas roupas, na tua pele e nos teus cabelos.
Vou mudar a cor dos teus lábios.
Limparás o teu rosto com as lágrimas que farei escorrer de ti.

Tudo isso, porém, ainda é pouco.
Na primeira oportunidade, invadirei os teus pulmões.
Acredites, nenhuma crise de tosse será capaz de me arrancar de lá.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Anjinho

Só me incomoda, um pouco, o peso dos meus olhos.
Minhas pálpebras quase latejam, sobrepesam.
Mas basta olhar os seus olhinhos fechados,
as suas mãozinhas fechadas como se segurasse uma flor...
E eu já ganhei minha noite.

Gosto de imaginar seus sonhos quando te vejo dormir.

Um beijinho no rosto e um carinho,
E eu nem preciso mais dormir pra estar bem no outro dia.

sábado, 26 de setembro de 2009

Vigília

Quando avistei o perigo,
trombeteei a tarde inteira.
Sem resposta,
pensei que ninguém havia escutado
o meu alerta.

Do farol distante onde sempre fico,
vigilante que sou,
corri para o monte mais alto,
aquele que dizem ser santo,
afim de avistar o reino ao qual sirvo.

Era tarde.
De fato, ninguém me ouviu.
Há muito já sabiam do risco
e fugiram.

Foram embora e eu fiquei para trás.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Kossum

Um beijo, quando já não queria mais nada da vida,
tocou de leve os meus dedos dobrados.
Uma outra mão deu-me o abraço.

Foi quando meus dois sentinelas adormeceram.
As Três Marias do meu pescoço se contorceram de indignação e medo.

Então, ouvi tocar o bumbo e a gaita
e a multidão de plebeus da minha pele se ergueu
para ouvir o hino de guerra.

Abriram os portões da fortaleza.
Corri para o meu quarto o mais rápido que pude.
Tranquei a porta, mas a janela está aberta.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Preciso (?)

Posso pensar de duas formas:
_Não preciso. Vou morrer e o que vou levar desta vida?
ou
_Sim, preciso. Vou morrer e o que eu vou deixar nesse mundo?

Até hoje eu não sei se eu preciso e, se pudesse, sequer pensaria nisso.
Não pedi pra nascer e agora tenho que morrer. Pior: tenho que fazer escolhas.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Fome

O melhor tempeiro do mundo é a fome, já dizia minha mãe. Isso é a mais pura verdade.
Quando estou com fome como mais, como melhor, acho mais gostoso. Devoro.

Por isso, quero que minha fome nunca passe, pois no dia que ela acabar... vou me sentir cheio de tudo.

sábado, 19 de setembro de 2009

?

Intraduzível. Ponto.
Só se sabe se sentir, quem sente sabe.

Saudade não é falta,
mas pode ser sentir a falta.
Mas o sentir...
o sentir, cara...
O sentir é dentro.
Não quer, não pode,
não vai sair. Devia.

Quem dubla uma saudade?
Quem sabe dizer o que é
e explicar o que sente?
Quem pode falar do que eu sinto
e quem entende?
E quem quer entender?

Saudade é a mulher que todos querem ver morta.